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João Paulo Rodrigues e Pedro Alves: “Sabemos ser pessoas sérias”Confissões: 10.12 - 10h Por: Miguel Azevedo

João Paulo Rodrigues e Pedro Alves, a dupla que popularizou as personagens de Quim Roscas e Zeca Estacionâncio, falam da carreira, da família e do outro lado do humor. Sem risos.

- Para quem passa o tempo a fazer rir, é complicado falar de si próprio sem ser a brincar?

Pedro Alves - Eu acho que é mais complicado para os outros falarem connosco sem verem em nós o Quim e o Zeca. Nós temos uma vida normal e também sabemos ser pessoas sérias.

João Paulo Rodrigues - Uma vez houve uma senhora que veio ter comigo numa livraria e me disse: ‘Mas você afinal fala normalmente'. Muito pouca gente sabe, por exemplo, que eu estou a acabar o curso de Direito.

- É incómodo para vocês que as pessoas estejam sempre à espera de vos ouvir dizer uma piada?

JPR - A mim costumam dizer-me: ‘Tu não precisas de falar para a gente começar a rir'. Há professores e colegas meus na faculdade que me dizem isso. Com o Pedro não é tanto assim. Ele faz um ar mais sério e a coisa é diferente. Comigo não sei se é por causa das orelhas! (risos).

PA - Eu, de facto, consigo passar mais despercebido na rua, mas quando estamos juntos as pessoas julgam que estamos sempre a interpretar personagens. E é vulgar pedirem-nos para lhes contarmos uma anedota.

- E nunca estão maldispostos?

PA - Então não?! Também tenho direito a ter uma dor de dentes ou uma dor de cabeça.

- Como é que lidam com isso?

PA - Com muita sensibilidade. Já são tantos anos que o ‘modus operandi' já é intuitivo. Mas, de uma maneira geral, mesmo quando estamos maldispostos tentamos sempre manter a boa-disposição. Acho que ninguém pode acusar-nos de sermos ‘mal encarados'.

- O que é que vos tira do sério?

PA - Os ‘chico-espertos'. São pessoas com quem eu não consigo ter uma conversa porque em termos de burrice ganham-me em anos de experiência. Acho que esse termo já devia ter entrado no dicionário de português.

JPR - Eu sou daqueles que ferve em pouca água.

- Quem é que tem pior feitio?

JPR - Sou eu, mas por outro lado também tenho melhor poder de resolução dos problemas do que o Pedro. Ele prefere dar um murro na mesa e virar as costas. Já eu estrebucho muito mas, depois, sou capaz de me retratar.

- Existe algum tipo de código de honra entre vocês?

JPR - Sim, ele não conta as minhas piadas e eu não conto as dele (risos).

- A pergunta ia mais no sentido de saber se há coisas com as quais não brincam?

PA - Não. Para nós é possível fazer piadas com tudo, porque nós não gozamos com as situações, apenas brincamos com elas.

JPR - Apesar de brincarmos com tudo, acho que nunca chegámos ao exagero, a ponto de chocar as outras pessoas. A única forma disto funcionar é ter sempre o público do nosso lado.

- Já viveram alguma situação constrangedora em palco?

JPR - Claro que sim. Recordo-me de uma vez, num espectáculo numa discoteca em Castelo Branco, em que pura e simplesmente as pessoas não estavam para nos ouvir. Era duas da manhã e queriam dançar.

- E o que é que fizeram?

JPR - Fizemos aquilo que o público nos pediu: viemos embora.

PA - Ainda andámos um ano com a síndrome de Castelo Branco, mas já fizemos as pazes.

- Vocês inspiram-se em pessoas que conhecem, amigos ou família, para fazerem as vossas personagens?

PA - Eu acho que o nosso País é uma fonte de inspiração inesgotável no que toca ao humor. Basta estar uma hora sentado num jardim para ver uma data de personagens diferentes. Mas, muitas vezes, também me lembro de como a minha mãe falava para mim quando eu era pequeno. E uso isso muitas vezes.

JPR - É impressionante, porque quando o Pedro faz de mulher, eu olho e vejo sempre a mãe dele. É tal e qual (risos).

- Disseram uma vez que as vossas mães se preocupam muito convosco. Elas têm razões para isso?

PA - Têm, principalmente por causa das viagens que fazemos. Andamos sempre na estrada para cima e para baixo. Se acabarmos um espectáculo às duas da manhã no Algarve e acharmos que estamos em condições, ainda regressamos ao Porto. Para nós é extremamente importante acordar com a família ao lado. Houve alturas em que a minha mãe fez viagens connosco, para nos manter despertos.

- A vossa família é de assistir aos vossos espectáculos?

PA - Os meus pais já não ligam muito. Eles já sabem o que têm em casa. Só quando temos algo de importante, como a gravação de um DVD, por exemplo, é que pedimos para que eles apareçam.

- E as vossas mulheres lidam bem com esta vossa vida?

JPR - Claro. Quando as nossas mulheres nos conheceram já nós fazíamos isto.

PA - A minha mulher sabe que isto é o nosso trabalho e nós não misturamos as coisas. Ela é capaz de ver um ou dois espectáculos nossos por ano, se tanto. O palco é o nosso local de trabalho. Eu também não vou passar o dia inteiro colocado à secretária da minha mulher a olhar para ela.

- Andar a fazer humor há tantos anos dá dinheiro?

PA - Dá-nos algum conforto, mas não somos ricos.

JPR - Há uma razão pela qual o Pedro tem outro trabalho (relacionado com automóveis) e eu, ao final deste tempo todo, decidi acabar o meu curso. Isto é efémero. Um dia acaba.

- O que é que acaba, o ter graça?

JPR - Não. Tu nunca deixas de ter graça. Os outros é que deixam de te achar graça. E um dia eu posso ter de ajudar as pessoas de outra forma.

- Neste momento, Portugal é ‘Tal & Qual' [título do novo DVD] o quê?

PA - É tal e qual um barco furado sem leme. Não tem motor nem velas. Só tem a carcaça com a malta lá dentro e um destino: o fundo.

- A quem é que gostavam de dizer das boas?

PA - A todos aqueles que há uns anos receberam subsídios e não fizeram nada com eles. Hoje estamos todos a pagar por isso. Lembro-me de ser miúdo e de ouvir pessoas a gozar com os subsídios que recebiam. Cheguei a ver Audis com uma charrua atrás a trabalhar o campo.

- Chegaram a definir o vosso programa ‘Tal & Qual' como duplamente estúpido. É difícil estar sempre a dizer e a fazer coisas estúpidas?

JPR - No nosso tipo de estupidez há muita coisa que deixa de se dizer, mas que se entende.

- Mas essa estupidez é espontânea ou trabalha-se?

PA - Trabalha-se. E muito. Por isso também temos uma equipa a trabalhar connosco.

- E quando as coisas não saem?

PA - Saem sempre. E a melhor forma para saírem é não termos alinhamento nos nossos espectáculos. É tudo feito de improviso. E como somos muito a muleta um do outro, as coisas nunca falham. Já me aconteceu dizer ao vivo que ‘a coisa não sai' e o pessoal partir-se a rir.

- Quando é que descobriram que tinham graça?

PA - Eu não sei quando é que descobri isso, até porque eu não tenho a certeza se tenho graça. Detesto, por exemplo, ouvir--me na televisão.

JPR - Eu costumo dizer que ele tem uma voz linda para escrever à máquina.

- Mas alguma coisa indicava que iam seguir por esta vida?

PA - Desde miúdo que gosto de contar anedotas. Fiz teatro a partir dos 8 e aos 16 comecei a fazer rádio. Tinha a minha emissão normal e depois havia um programa que começou a desenvolver uns personagens e foi aí que começou o Estacionâncio, em que eu fazia uma voz diferente. Aproveitei para me esconder atrás daquela personagem para mandar umas bojardas.

JPR - Eu lembro-me de estar em casa do meu pai, em Moçambique, e ser quase obrigado a contar anedotas para os amigos dele. Eu era o ‘palhaçito' de serviço.

- É verdade que o vosso primeiro encontro não correu muito bem?

PA - Sim (risos). Conhecemo-nos num bar há onze anos. Ele estava a contar anedotas e eu estava no público a ‘mandar bocas'. Ele ficou chateado e disse-me: "Porque é que não vens para aqui tu?". "E vou", disse eu. Estive vinte minutos a fazer a malta rir e depois disso ficámos amigos.

JPR - Ainda me lembro que a anedota dele terminava assim: "O celeiro a arder e tu aí toda nua..." E pronto, a partir daí ficámos amigos (risos).

- O humor deu-vos muito sucesso junto das mulheres?

PA - Claro que deu! É engraçado porque nós conseguimos ter uma percentagem impressionante de público feminino nos nossos espectáculos.

JPR - Comigo nem por isso; continuo com a mesma (risos).

INTIMIDADES

- Quem gostariam de convidar para um jantar a dois?

PA- A Charlize Theron.

JPR - O elenco de ‘Friends'.

- Quem é para vocês a mulher mais sexy do Mundo?

PA - A Charlize Theron.

JPR - Diane Wood (actriz).

- O que não suportam no sexo oposto?

PA - O mau hálito.

JPR - A mania que têm de que nos conhecem de cima a baixo.

- Qual o vosso maior vício?

PA - A adrenalina nas minhas corridas de automóveis.

JPR - O cinema. O que mais gosto é sentar-me no meu sofá e ver três ou quatro filmes de seguida.

- Qual o último livro que leram?

JPR - ‘A Dama das Camélias'.

PA - O ‘Equador'.

- O filme da vossa vida?

PA - Como gosto muito de música, geralmente os filmes que me marcam são aqueles que têm grandes bandas sonoras. Um deles é o ‘Sin City'.

JPR - É ‘O Padrinho'.

- Cidade preferida?

JPR - É Braga.

PA - Em Portugal é o Porto e no estrangeiro é Praga.

- Um desejo?

PA - Ser feliz.

JPR - Conseguir fazer tudo o que quero fazer.

- Completem. A minha vida é...

PA - É muito fixe (mesmo).

JPR - É um stress.

PERFIS

PEDRO ALVES

Tem 36 anos e nasceu no Porto. Diz que não se considera famoso e tem uma paixão secreta: os automóveis e as motos.

JOÃO PAULO RODRIGUES

Tem 33 anos, nasceu em Lisboa mas cedo se mudou para o Norte. Está a terminar o curso de Direito e é viciado em cinema.



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