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Joaquim Monchique: “Sempre sofri por ser filho único”Confissões: 08.10 - 10h Por: Sofia Rêgo

O silêncio perturba-o. Actor, comediante, Joaquim Monchique assume-se poligâmico e garante que nunca sofreu por amor. A família queria-o doutor mas Joaquim não resistiu aos aplausos. Filho de um importador de bebidas alcoólicas, diz que nunca bebeu uma cerveja e é incapaz de se rir de si porque o riso é a sua profissão.

- Nunca se cansa de fazer rir? Às vezes. Às vezes cansamo-nos de estar tanto tempo a representar.E fazer rir é mais difícil?

- É mais difícil e mais esgotante. É muito mais cansativo do que outra coisa. Mas é um cansaço do dia, é como o leite do dia. No dia seguinte já passou. A minha professora dizia uma coisa à minha mãe que eu hoje repito: "Ele pode ser o que quiser." Acho que tenho essa capacidade. Estou sempre a ver o que me rodeia.

- É observador?

- Sou. Tenho uma parabólica na cabeça. Quando sair desta esplanada [Miradouro de São Pedro de Alcântara, onde foi feita a entrevista] sei tudo, quantas mesas, candeeiros... Ouço tudo o que dizem, e isso também cansa. É muita informação. Mas para a minha profissão é óptimo, porque gosto muito de ver as pessoas...

- E isso ajuda-o a compor uma personagem?

- Ajuda muito. Tenho um disco dentro da cabeça onde guardo tudo, e quando preciso vou lá buscar.

- Foi o Joaquim que escolheu ser actor?

- Não. Foi a profissão que me escolheu.

- Subiu ao palco...

- Subi ao palco, ouvi palmas, ouvi risos, dei nas vistas. Tinha seis anos. Recitei um poema, e foi um êxito. E, depois, eu sou filho e neto único.

- E foram os seus avós que incentivaram essa faceta de actor.

- Eles não percebiam, incentivavam sem incentivar. Achavam graça. Um avô deu-me uma casinha para eu fazer o meu primeiro teatro. Era mais para eu gastar energia. E inconscientemente formaram-me a ter o meu primeiro teatro, o meu público... Eu cresci muito com a televisão, como filho único...

- Lamenta ser filho único?

- Lamentei sempre. Tanto que, quando cheguei a uma idade mais consciente, comecei a encontrar irmãos que duram até hoje.

- São a família que escolheu?

- São. Tenho dois ou três que, obviamente, se calhar, são muito mais do que se fossem mesmo da família. Da família a gente aceita o que vem... Mas sempre tive esse desgosto de não ter tido irmãos. Sempre sofri com isso.

- Sentia-se sozinho?

- Sim. E só quem é filho único é que compreende isso. Os outros nunca vão compreender. Eu adorava ter sete irmãos...

- Mas a família aplaudia o menino. E quando cresceu e disse que queria ser actor?

- Achavam muita gracinha ao menino muito extrovertido. Mas depositaram em mim as esperanças todas de ser doutor.

- Doutor em quê?

- Em qualquer coisa, desde que tivesse um ‘dr.'. Eu ia para a Católica e depois entrei no Teatro Aberto. Foi um desgosto para eles. Pensavam que era uma fase. Eu era muito carismático.

- Tinha características de líder?

- Sim, sempre consegui vencer os obstáculos com charme e sedução. Mesmo quando estava à rasca para passar, aplicava sempre o charme e o teatro. Qualquer coisa que corria mal eu era encantador, fazia um sorriso, e as pessoas...

- ... Caíam?

- Caíam. E, realmente, é uma arma que os actores têm de ter. Nós temos de estar sempre a seduzir o público.

- Mas acabou o curso de Teatro com 20 valores.

- Nunca liguei muito a isso. Quantos colegas meus são maravilhosos e nunca tiveram um lugar ao sol! O público é que escolhe. Um colega meu argentino disse-me, e eu achei muita graça: "Nós somos uma espécie de monarquia. Eles vêem-nos desde pequeninos, acompanham a nossa vida toda, e sabem se engordámos." E eu sei isso porque as pessoas dizem-me "você agora está mais gordinho", "você está mais magrinho".

- E o Joaquim lida bem com isso?

- Sim, embora já tenha tido o meu período de deslumbramento, como têm os miúdos dos ‘Morangos'. Eu não batalhei para ser conhecido mas sempre disse aos meus amigos que ia ser muito famoso. Ser conhecido não tem interesse nenhum. Tem interesse o reconhecimento do trabalho.

- É um homem de choro fácil?

- Não, nada. Eu para chorar... Sou ‘up', alegre, extrovertido. E para chorar tenho de estar numa situação de rastos ou, então, de cansaço. A última vez que chorei a valer foi quando estava a ensaiar ‘Mais respeito que sou tua mãe', porque tinha de me ensaiar a mim e mais aos nove colegas, o cansaço era tanto que uma vez cheguei ao carro e comecei a chorar.

- A sua mãe era doméstica e o seu pai importava bebidas alcoólicas...

- Que eu odeio. Nunca bebi uma cerveja na minha vida e as pessoas acham todas que eu bebo loucuras.

- Porquê?

- Não sei se é por causa do "em casa de ferreiro, espeto de pau". Em minha casa sempre tive um bar, e os meus colegas alucinavam e apanhavam bebedeiras de cair pelas escadas. Eu nunca gostei de álcool.

- Nem vinho?

- Sou capaz de beber um copo, mas depois fico tão dormente... As ‘substâncias' não me atraem.

- Leva-se a sério?

- Nada. Tanto posso estar a dizer uma coisa como daqui a cinco minutos achar que é outra. Claro que há coisas que são... E com esta profissão... Gozo comigo, com os meus defeitos e qualidades.

- Então brinca consigo mas não se ri de si...

- Porque o riso tem sido a minha profissão. Uma vez falei com o Jô Soares e ele estava a dizer: "Benditos os eleitos que têm esta capacidade de porem as pessoas bem-dispostas. Qual é a química que os humoristas têm para transmitir isso?" E eu noto isso quando vou na rua. As pessoas olham-me e fazem um sorriso. Há qualquer mecanismo que lhes lembra que eu já os fiz rir ou que já os fiz felizes.

- Mas o Joaquim não é só comediante.

- Mas sempre estive mais ligado à comédia. É muito bom agarrar o público.

- E como é que ‘agarrou' os seus pais?

- O meu pai morreu quando eu tinha 14 anos. A minha mãe e os avós perceberam que não havia nada a fazer.

- E agora gostam?

- Gostam, porque é ‘a avó do Monchique', é ‘a mãe do Monchique'... A minha mãe já me confessou que quando vai a qualquer lado dá outro nome só para não estar a ouvir...

- ... "gosto muito do seu filho".

- Pois, mas eu disse-lhe que utilize o apelido quando for a um hospital... Eu nasci numa altura em que a profissão de actor não era como hoje. Hoje são as mães que empurram os filhos, vão aos ‘castings'...

- Agora é mais fácil participar, mas é mais difícil vencer?

- Esta profissão é uma peneira. As pessoas acham que isto é uma coisa que não é.

- É religioso?

- Não. Não acredito em nada.

- Mas cresceu assim?

- Não. Cresci a ter de ir à missa. Fiz o crisma e a profissão de fé. Via tudo sempre pelo lado teatral, porque a Igreja é muito teatral. E ficava fascinado, porque aquilo tinha uma boa luz, velas, palco, roupas...

- Apesar de ser conhecido, preserva bem a sua vida privada.

- Eu acho que já somos tão expostos... Para ir tomar um café, sei que tenho de parar para falar com as pessoas. Nunca tive uma reacção desagradável. E compreendo, porque quando vou a Nova Iorque e vejo alguém de quem gosto muito - a Bette Midler, por exemplo -, de certeza que ia falar com ela.

- Quer dizer que viaja para poder viver?

- Sim, mas não estou a ser pretensioso. Eu sempre quis ser conhecido. E vou a todo o lado. Às vezes não vou sozinho. Vou à Feira da Ladra, que adoro, vou sair à noite para o Bairro Alto...

- Mas usa óculos escuros?

- Uso, mas as pessoas já sabem, já me viram de todas as maneiras. "Você está bem disfarçado", dizem. E uso óculos porque tenho fotofobia, a luz incomoda-me. Os óculos também nos resguardam.

- Resguardam o olhar?!

- Resguardam. Tenho uma colecção enorme. E gosto, é um adereço.

- Ainda vê muita televisão?

- Vejo, mas não da mesma maneira que as outras pessoas vêem. Interessa-me a forma, não o conteúdo. E gosto muito de ver ‘talk-shows', sou adicto do Piers Morgan. Vejo muito cinema. Vejo muita coisa, sou mesmo muito compulsivo. Vejo tudo, para depois poder brincar com as coisas.

- Mas do que é que gosta?

- Gosto de coisas bem feitas. Gosto muito de música, tenho uma coluna em todas as divisões da casa. Anos 40 e 50, sei tudo do Mundo inteiro. Gosto de grandes orquestras mas também de ‘house'.

- E goza o momento?

- Não. Gozo a vida. Já que estou cá, quero ver tudo e saber o que se passa.

- É uma pessoa cansativa?

- Sou cansativo comigo. Chego ao fim do dia cansado.

- Tem de dormir bem?

- Tenho. É a única droga que eu tenho, dormir. E durmo a qualquer hora e lugar, desde que tenha a minha almofada.

- Há quantos anos tem essa almofada?

- A almofada é nova, mas é o mesmo modelo e é comprada sempre no mesmo sítio.

- É mimado?

- Muito. Pelos outros e por mim. Mimo-me com coisas materiais.

- E egoísta?

- Não, não sou nada. Aliás, o meu maior prazer é dar.

- Tem aptidão para quê?

- Tenho aptidão para pilotar aviões, ser arquitecto. Era incapaz de ser professor, instrutor de condução... Odeio conduzir, porque gosto de ver.

- Coisas mecânicas...

- Não sei fazer nada com as mãos, tenho esse ‘handicap', é até um atraso. Tudo em que pego parto...

- Mas tem falta de habilidade e de concentração?

- Sou muito distraído. Quando estou a estudar um texto tenho a televisão, o computador, o iPod a tocar, e ainda sou capaz de mandar sms. Se estiver quieto sem ouvir nada o texto não entra.

- O silêncio...

- ... só para dormir. Aí tem de estar tudo fechado e às escuras. Desligo e carrego a bateria.

- E é verdade que se retrai quando fala de amor?

- O amor é muito banalizado. Tudo é amor, e agora há um social de amor, um amor de negócio, "juntos vamos vender muito". O amor, para mim, é sentimento e cabeça.

- É por isso que se resguarda tanto?

- Não. Eu não tenho um amor, e não acredito na monogamia. O ser humano não é monogâmico. Eu sou poligâmico. Monogâmico é fingir que se está ali, que só se tem aquela pessoa, só que é mentira.

- Já sofreu por amor?

- Não, nunca. Como não sou de coisas monogâmicas... Estar numa casa com alguém é impensável. A monogamia não existe.

INTIMIDADES

- Quem convidaria para um jantar a dois?

- O Johnny Depp, que adoro, e a Madonna, não porque goste dela mas porque ela é uma superstar planetária. E já a vi no Maracanã [Rio de Janeiro], com 75 mil pessoas a gritar por ela, e pensei: "O que é que esta mulher estará a sentir?"

- O que não suporta no sexo oposto?

- O mesmo que não suporto no meu sexo, a maldade. É a única coisa que eu não tolero. Sempre trabalhei com egos, tenho um ego maior que toda a gente.

- Qual é o seu maior vício?

- O tabaco, queria deixar mas não consigo. Já tentei, mas é tão doloroso... Juro que se houvesse um remédio eu tomava.

- Qual foi o último livro que leu?

- Li uma coisa genial, um dos livros da minha vida. É do Ken Follett, ‘Os Pilares da Terra'. Todas as pessoas, se puderem comprar... Fica para a vida. São dois volumes muito bem escritos. É daqueles livros que a pessoa quer ir para casa para saber o que se vai passar.

- O filme da sua vida?

- Não tenho.

- Cidade preferida?

- Nova Iorque, Buenos Aires e Lisboa.

- Um desejo.

- Ter um teatro.

- A minha vida é...

- O que é que é a minha vida?! A minha vida é... Se morrer amanhã, a minha vida é o nome da minha biografia: ‘Fiz o que quis'.

PERFIL

Joaquim Monchique é natural de Lisboa, tem 43 anos e é actor há 23. Filho e neto único, completou o curso de Teatro com 20 valores. Em 1989, subiu ao palco no Teatro Aberto, e em 1991 ficou famoso ao participar em ‘Grande Noite', na RTP.



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