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Martinho Silva: “Se pudesse era pai a tempo inteiro” Confissões: 12.11 - 10h Por: Sofia Rêgo

Multifacetado, Martinho Silva confessa ser irrequieto e diz que se fez actor contra a vontade do pai. Provocador, afirma que ganha dinheiro com a publicidade. Martinho sonha em ter uma quinta e ambiciona interpretar um personagem de "puro entretenimento".

- É irrequieto?

- Sou, é verdade. É giro começar a entrevista por esta característica que pauta toda a minha vida. Sempre fui muito traquinas.

- E a representação era um desejo?

- Tive um percurso normal até ao 9º ano. No 10º tinha de escolher e não tinha bem definido o que queria, sabia que tinha de estar relacionado com as letras.

- Era mau aluno a matemática?

- Não. Nunca tirei uma negativa e orgulhava-me disso, não era marrão mas acho que tinha facilidade em aprender. Mas entrei num grupo de teatro amador e fiquei fascinado. Depois, um amigo meu descobriu uma escola no Porto.

- E inscreveram-se?

- Sim. Mas precisava de ter algum apoio financeiro. E dizer aos meus pais que ia para uma escola de teatro... Não.

- Não porque tinham fracos recursos ou para eles teatro não era profissão?

- Nós éramos sete irmãos. Estavam todos bem encaminhados na vida e aqui a ovelha negra... O meu pai foi veemente a dizer ‘não’, mas eu disse-lhe que ia. A minha mãe sempre foi muito querida: "Se queres...". Depois consegui uma bolsa. Aluguei um estúdio com um amigo e de repente era autónomo. Eles aperceberam-se que eu pagava impostos, era independente, até demais para eles.

- O Martinho começou no teatro porque estudava e vivia no Porto?

- Quando fui fazer o curso de teatro não me passava pela cabeça fazer televisão. E na altura, em 1998, não havia a produção televisiva que há hoje. Para fazer televisão era preciso vir para Lisboa. E a paixão era mesmo pelo teatro, estar em cima das tábuas, em contacto com as pessoas. Mal acabei o curso comecei a trabalhar com o Ricardo Pais no S. João, no Porto.

- Começou logo a trabalhar com os grandes nomes?

- Mais ou menos. Porque entrei para o Nacional a fazer figurações.

- Foi crescendo no palco?

- Sim. Aliás, a minha vida tem sido assim.

- Gosta de experimentar?

- Gosto. Houve colegas meus que receberam convites de companhias e aceitaram ficar. Eu não tenho nada contra isso. Mas gosto de jogar sem rede. Por isso é que fiz um percurso no teatro e depois fui à dança. E a televisão aconteceu.

- Aconteceu como?

- Fui fazer o ‘Super Pai’. Fui a um casting. Quando cheguei a Lisboa comecei a aperceber-me da quantidade de pessoas que faziam inúmeras coisas, havia publicidade, cinema...

- E é o dinheiro que ganha na publicidade que lhe permite escolher os trabalhos?

- Não sei.

- O anúncio do Continente foi bom em termos monetários?

- Claro que sim. O meu maior receio era ser conhecido pelo ‘Sr. Continente’. Mas a verdade é que se o pensam não o dizem. Fico satisfeitíssimo com as abordagens das pessoas, porque falam das personagens. Antes de ser o gajo da publicidade, sou o actor que faz publicidade.

- Mas foram os ‘Morangos com Açúcar’ que lhe trouxeram fama?

- Foram. E fui apanhado de surpresa. Adorava fazer isso. Todos os dias havia situações hilariantes.

- E conseguiu lidar com o reconhecimento na rua?

- No início não. Não sabia lidar com essa exposição. Apesar de não parecer, sou um bocado recatado. Nunca tive o fascínio, ou o à-vontade da iniciativa de pedir autógrafos a uma pessoa que estimasse. Esse fenómeno para mim era muito estranho. E eu pensava, não vou pôr a minha assinatura nesses papéis, senão podem falsificá-la. Eu não posso assinar como no BI. Mas depois...

- Habituou-se?

- Pois. Também pelo contacto com outras pessoas que estavam no meio. Cheguei à conclusão que se tinha aceite fazer aquele trabalho na televisão, tinha de aceitar estar exposto.

- E como é que lida hoje com isso?

- Hoje é muito tranquilo. Acho que as pessoas são tão inundadas com caras que às vezes reconhecem-me mas nem sabem de onde.

- E os pais, agora aplaudem-no?

- Herdei a discrição dos meus pais. Eles sempre foram pessoas muito discretas.

- É verdade que gostava de fazer uma série ou filme tipo ‘Missão Impossível’?

- Já fiz circo, já fiz espectáculos com um envolvimento e uma exigência física brutais. Na escola era um actor muito físico. Adoro fazer escalada, faço andas.

- Gostava de aproveitar as suas capacidades para um personagem?

- Exactamente. Um personagem de puro entretenimento. É muito bom fazer personagens densas, mas isso eu tenho tido.

- Mas tudo o que fizer tem de estar relacionado com as artes? Não se vê a fazer outra coisa?

- Vejo-me a fazer carpintaria. Gosto imenso. Em casa fiz algumas coisas. Evito ao máximo chamar alguém para fazer qualquer coisa.

- Estamos a falar de canalização, electricidade...

- É verdade. Faço tudo e não me estou a armar. Tenho um estojo de ferramentas. Falei na carpintaria mas é só um exemplo. Tudo o que conseguir construir com as mãos. Compro um pedaço de madeira e... Tenho isto desde puto, quando comecei a observar o meu pai, que sempre foi uma inspiração. Sempre admirei sermos auto-suficientes.

- Em casa tem um espaço para se dedicar aos trabalhos manuais?

- Tenho. Tenho um logradouro e faço tudo. Os estores avariam-se e eu arranjo-os. Tinha um espaço entre o fogão e a bancada e fiz um móvel. Depois é o orgulho de saber que foi feito por mim. Gosto imenso de desafios.

- E o facto de a sua mulher [Andreia Pardal] ser arquitecta também ajuda?

- Ajuda muito e é uma compensação muito grande. É um alívio chegar a casa depois de um ensaio e ter outras conversas, poder falar de outras coisas.

- Conheceram-se como?

- Através de uma amiga comum, a Bárbara, a filha do António Feio.

- Estão juntos há cinco anos e têm uma filha, Carolina, de um ano. Ser pai superou as suas expectativas?

- Sinto-me bafejado pela sorte. Ter uma criança tão boa, tão querida.

- Mas isso é o que dizem todos os pais dos filhos.

- Sim. Mas depois têm umas olheiras... A nossa filha dorme como um anjo, come maravilhosamente. É fabuloso ver a vida a desenvolver-se. Estou mesmo maravilhado; babado. Eu sabia que queria ser pai.

- Quer ter mais filhos?

- Quero. Mas é tudo muito pensado. Temos de dar-lhes atenção, acompanhá-los. Quando a Andreia terminou a licença de parto eu estava sem trabalho. Estive dois meses com a Carolina e foi maravilhoso. Percebi que se pudesse era pai a tempo inteiro. Porque é uma profissão muito bonita.

- Mas conseguia realizar-se em casa?

- Eu faço teatro, sou actor como podia ser qualquer outra coisa desde que tivesse realização naquilo que fizesse. Ser pai é uma profissão muito boa. Estás sempre presente. Hoje em dia não estamos preparados para isso. Deixamos os filhos nas creches e são outras pessoas que os educam.

- Mas depois eles crescem...

- Mas eu não sou pai galinha. A Andreia e eu somos opostos. É muito bom. Compensamos. Eu sou excessivamente liberal na questão de ela andar pelo chão, sujar-se... Acredito que tem de ganhar anticorpos. Eu fiz isso. Ainda por cima tive uma proximidade muito grande com a terra e com os animais. Mas depois noutras coisas já sou mais rígido. Acho que devemos imprimir-lhe educação. Um futuro idílico era eu ter a minha quintinha, tratar dos meus animais, plantar a terra.

- Isso é um sonho?

- Acho que vai acabar por se concretizar. Quando cheguei a Lisboa vivi intensamente o frenesim da cidade. E sinto que com a idade vai apetecer-me voltar à terra.

- Começa a sentir-se cansado?

- Não, de todo. Porque felizmente não sou funcionário público. Sou um sortudo como todas as pessoas que não têm rotina. Mas tenho preocupações com a cria.

- Consegue estudar os textos no silêncio?

- Lá está a minha personalidade irrequieta. Quando tenho um método, desisto dele e procuro outro. Tenho alguma facilidade em decorar os textos. Sou cumpridor. Fala-se de sorte mas sou trabalhador. O maior prazer que tive foi nos trabalhos que consegui por casting. Claro que também sabe bem receber um telefonema do Diogo Infante a convidar-nos para fazer um espectáculo no Nacional [Teatro D. Maria II].

- A Carolina já o viu na televisão?

- A minha sogra disse-me uma vez que estava a dar uma série e chamou-lhe a atenção: "Olha o pai". E ela chorou. Mas confesso que também não vejo muita televisão.

- É provocador?

- Sou, gosto muito de provocar. Quando fui para o Porto andava com uns ténis de cada cor. Furei as orelhas, andava com piercings. Acho que a provocação que eu suscito é a apelar para não se acomodarem.

- Gosta de viajar?

- Gosto, mas não sou de ir a um sítio para passear. A maior parte das viagens que fiz foi em trabalho. Adoro viajar assim. Gosto de ir com um objectivo. l

INTIMIDADES

- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?

- O Johnny Depp, que interpreta o senhor Jack Sparrow [em ‘Piratas das Caraíbas’]. Vejo nele o que gostava de ser a nível artístico.

- Quem é para si a mulher mais sexy do mundo?

- Evangeline Lilly [actriz canadiana].

- O que não suporta no sexo oposto?

- Não suporto que deixem cabelos espalhados pela casa, que sejam porcas.

- Qual o seu maior vício?

- Os gadgets. Gosto de saber como funcionam. As tecnologias fascinam-me.

- Qual foi o último livro que leu?

- ‘Amadeus’, de Peter Shaffer.

- O filme da sua vida.

- ‘Le Huitième Jour’, de Jaco van Dormael. É muito giro. É sobre um homem [Georges] que tem trissomia 21 e é uma lição de vida. No oitavo dia, Deus fez o Georges.

- Cidade preferida?

- Lisboa.

- Um desejo?

- Saúde para mim e para os meus.

- Complete. A minha vida é...

- É o que eu sempre sonhei.

PERFIL

Martinho Silva nasceu há 32 anos em Penafiel. Formou-se na Escola Profissional Balleteatro, no Porto, antes de subir ao palco no Teatro Nacional S. João. Na televisão ganhou fama com ‘Morangos com Açúcar’ (TVI) e hoje está em ‘Amadeus’, no Teatro Nacional D. Maria II, e grava a segunda série de ‘Maternidade’ (RTP1).



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