Nuno Gama: “É mais fácil ser português lá fora” Confissões:
22.10 - 10h
Por: Nelson Rodrigues
Apaixonado pela vida e pela sua profissão, Nuno Gama inspira-se em Portugal e nos seus clientes para criar as colecções. Defensor de um único evento de moda no nosso País, o estilista, cujo pai faleceu este ano, sente saudades de passar mais tempo com toda a sua família, em Azeitão.
- Apresentou este mês a sua colecção na ModaLisboa. Quais vão ser as tendências para o próximo Verão?
- É uma colecção que gira muito à volta de uma condição física que passa pelo ginásio. É direccionada para os meus clientes, para aqueles que cultivam o corpo e vão ao ginásio assiduamente. As t-shirt são abertas. Têm um decote longo para mostrar o peito modelado.
- Os clientes são a sua inspiração?
- Sem dúvida. São eles que me dizem o que querem e o que gostam. Eles é que pedem os decotes. Quando não há, queixam-se.
- É uma colecção mais direccionada para os homens que vão ao ginásio...
- A colecção é direccionada para os meus clientes. Não pretendo fazer roupa para toda a gente. Não tenho uma cadeia multimarcas. São para clientes fixos.
- A sua mãe esteve na ModaLisboa. A presença dela é importante?
- Quem é que eu sou sem a minha mãe? É uma questão de laços e de carinho. Ela é o meu porto de abrigo. Ainda para mais agora, com a morte do meu pai...
- Foi difícil para si mostrar uma colecção poucos dias depois da morte do seu pai [Março deste ano]?
- São coisas que fazem parte da vida. Temos de reunir coragem e seguir em frente.
- Foi um dia complicado?
- Ainda hoje é complicado. Só quando se perde um pai ou uma mãe é que se percebe a dor.
- Era próximo do seu pai?
- Muito. Dele e de toda a família. Embora não esteja tanto com ela, uma vez que vivem em Azeitão. Mas sinto muito a falta de todos.
- Tem saudades de Azeitão?
- Vim para o Porto estudar em 1986. Na altura encontrei a cidade maravilhosa. Hoje acho que me sinto dividido. Digo que sou do Porto mas, no fundo, não sou. A força da minha vida está toda aqui.
- Não pensa voltar às origens?
- Ainda quando o meu pai faleceu pensei nisso. Pensei que poderia não ter mais tempo de compartilhar coisas boas com ele. O meu pai foi imensas vezes ao hospital e eu não pude ir com ele... A minha vida profissional está no Porto.
- A sua família nunca o acusou de se dedicar demais ao trabalho?
- Eu sei que tenho faltado a alguns eventos importantes em família. Acho que eles todos compreendem isso e têm um enorme orgulho em mim. Não há maior dor do que essa. Não me sinto muito confortável com essa situação. Custa-me muito ir embora e abraçar as pessoas.
- Não gosta de despedidas?
- Gosto, mas as da família são muito complicadas e difíceis [emocionado].
- Apesar de viver no Porto, o público do Norte não conhece as suas colecções, uma vez que não participa no Portugal Fashion.
- Não participo porque o Portugal Fashion e a ModaLisboa não se entendem. A minha colecção é só uma. Não são duas nem três e acho que não fazia sentido apresentar nos dois sítios. Achei que a ModaLisboa tinha melhores condições para mostrar as minhas tendências. Também não me agradou haver pessoas que são privilegiadas com o Portugal Fashion e haver condições diferentes na ModaLisboa. Perante as duas ofertas, a ModaLisboa é mais sólida. Não poderia compactuar com certas situações que são contra os meus princípios.
- Então os seus admiradores do Norte tiveram de ir à ModaLisboa...
- Acho que nem deveria haver dois eventos. É uma perfeita vaidade. Estamos a dividir o que já é pequenino. Somos um País em que estamos a 300 quilómetros uns dos outros e assim parece que ainda estamos a aumentar a divisão. Defendo um único evento de moda em Portugal a 100%.
- Porquê?
- Acho que é ridículo, vergonhoso e um gasto excessivo de dinheiro. A moda tem de estar à parte das guerras das cidades.
- Como encara a crise que se vive actualmente na moda?
- Com muita preocupação. Mas temos todos de nos dedicar e esforçar mais.
- A crise já o afecta?
- Claro que sim. As pessoas e as lojas estão a comprar menos. O povo tem medo de comprar. É um ciclo que nunca acaba.
- A moda em Portugal tem falta de apoio?
- Que eu saiba não tem apoios nenhuns. Eu, pelo menos, não tenho apoio. Tenho de trabalhar, senão não ganho dinheiro nenhum.
- Por que é que chama sempre figuras públicas, como foi o caso do Ângelo Rodrigues, para desfilar?
- Não convido figuras públicas. Convido apenas os meus amigos.
- E sente que os seus amigos levam mais espectadores aos eventos?
- No meu trabalho já consegui atingir um estatuto que leva pessoas a ver os meus desfiles e não quem vai desfilar neles. Pois estão à espera que eu os surpreenda e que faça um bom trabalho. Por outro lado, vão ver alguma nudez e alguns amigos meus, que são figuras públicas. Se calhar vão ver a minha mãe e, se calhar, também me vão ver a mim e à Maria Gama [a cadela]. Mas isso é tudo secundário. O principal é a colecção.
- Mas tem algum modelo de eleição?
- Não. Os meus modelos de eleição não têm de ter a 4ª classe nem serem doutores. Não têm de ser nem louros nem morenos. Têm de ser pessoas adequadas à colecção e que dêem uma imagem abrangente ao trabalho. É lógico que não iria chamar o ‘Corcunda de Notre Dame'...
- A sua colecção está sempre muito ligada às raízes de Portugal. É patriota?
- Gosto de Portugal. É um país fantástico. Irrito-me muito com os portugueses que passam a vida a queixar-se daquilo que têm. Nós temos o melhor clima, melhor praia e comida. Já para não falar na nossa História, da qual nos devemos orgulhar.
- Portugal também o inspira?
- Muito. Tanto que faço sempre questão de o levar lá fora.
- Qual é a reacção do exterior à colecção do Nuno Gama?
- É mais fácil ser português lá fora do que cá dentro. As pessoas não têm tanto preconceito.
- Os portugueses vestem bem?
- Cada vez vestem melhor. Mas nem todos, devido à situação económica e social.
- Sempre quis ser estilista?
- Eu não tinha a menor noção do que era ser estilista. Mas, de repente, dei um pulo e comecei a preocupar-me com roupa e a ter encomendas. Foi tudo muito rápido.
- Foi apoiado por toda a sua família?
- O meu pai não achou graça nenhuma no dia em que abri a carta do Citex [Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil] que dizia que iria integrar o curso. Se calhar não achou graça à profissão, mas também à mudança de cidade.
- Foi uma criança feliz?
- Muito. Cresci rodeado de família. Era uma criança de muitas diabruras. Nunca fui um santo, nem hoje o sou. Passei muito tempo na praia e no meio de muita natureza. Tive uma infância muito boa.
- Quis ser estilista por ser o mais alto da escola?
- Nas fotos de escola eu era sempre o mais alto. Parecia um pai com muitos filhos. Com 12 anos era um ‘matacão' e calçava o 44 [actualmente mede 1,91 m], daí ter-me preocupado cedo com os tecidos e com a roupa e em ter coisas bonitas e confortáveis.
- Com que idade desenhou a primeira colecção?
- Tinha 14 anos quando criei as primeiras peças de roupa. A primeira colecção só surgiu durante os estudos no Citex.
- E porquê só roupa de homem?
- Já desenhei para senhora. Mas enveredei pelas colecções de homem que são mais difíceis de desenhar, apesar das mulheres serem muito exigentes.
- Que balanço faz da sua carreira até ao momento?
- Teve um lado difícil. Mas maravilhoso, ao mesmo tempo. A vida é uma aventura maravilhosa. É uma mistura de amor e muita dedicação.
- Sente-se nervoso antes de mostrar a colecção?
- Antes estou sempre ansioso. No momento fico stressado. Fico preocupado em dar o meu melhor até ao último instante. No final fico mesmo ‘à rasca'. E quando os meus amigos e clientes me vão dar os parabéns fico muito intimidado pois não sei se estão a ser realmente sinceros ou se estão a ser apenas amigos.
- A moda é mundo de falsidade?
- A falsidade não é característica da moda. As pessoas é que são falsas. A moda não é um mundo de droga. São as pessoas que a levam, não é a moda que as dá.
- O seu ateliê já foi assaltado várias vezes. Esquece-se de fechar a porta?
- Já foi assaltado três vezes. Nunca apanharam os ladrões que remexem sempre em tudo e roubam tudo o que há de valor. A porta é sempre estroncada.
- Também uma loja sua já sofreu um incêndio...
- Foi um curto-circuito numa loja na rua do Almada [Porto]. Esse fogo quase que me destruía. Fiquei sem nada. Imagine o que é trabalhar 24 horas numa coisa e ter o mundo à sua espera e, em duas horas, desaparecer tudo. Até os amigos desapareceram. Fiquei sozinho e sem saber como me virar. Senti-me muito mal. Olhava para baixo e só via escuro. Não sabia onde colocava os pés. Sabia que podia cair a qualquer momento e que ninguém me ia agarrar. Espero que nunca ninguém passe por isso. Foi recomeçar do fundo da escuridão. No entanto, tive ainda mais vontade e garra.
- Como encarou o convite para desenhar as batas de todos os funcionários do Hospital de S. João [Porto]?
- É um desafio como outro qualquer. O sentido estético é difícil de conciliar. É fácil desenhar roupa para uma pessoa que vem à minha loja e diz o que gosta e o que quer. É difícil ter de fazer algo para uma quantidade imensa de pessoas que nunca vi, não sei o que comem, com quem dormem, nem o que querem. Fiz o que profissionalmente e esteticamente me pareceu que seria indicado. Não foi nada fácil mas um grande desfio.
- A sua cadela [a Maria Gama] é uma das suas melhores amigas?
- A Maria Gama é só a minha cadela. Está sempre comigo em todas as situações. Mas os meus melhores amigos são pessoas e não a Maria Gama.
- Sempre gostou de animais?
- Tive um cão na minha vida que me marcou mas que acabou por falecer. A Maria Gama veio de uma ninhada esquecida e que ninguém queria. É linda de morrer. Não fui eu que a escolhi. Foi o destino.
- Como olha para o futuro?
- Estou curioso para saber qual vai ser a minha viagem. E até onde vou conseguir chegar. A vida é apaixonante.
INTIMIDADES
- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?
- A pessoa que amo.
- Quem é, para si, a mulher mais sexy do Mundo?
- Há muitas mulheres bonitas. A Angelina Jolie é uma delas.
- O que não suporta no sexo oposto?
- O mesmo que não suporto no mesmo sexo. Assuntos negativos e estúpidos da vida, dos quais as pessoas tendem a esconder-se. Falsidade, por exemplo.
- Qual é o seu maior vício?
- É o meu trabalho.
- Qual foi o último livro que leu?
- Foi o ‘Anjo Branco', do José Rodrigues dos Santos. Devorei o livro. Eu gosto ou não gosto.
- O filme da sua vida?
- Tenho muitos. Adoro filmes históricos. Gosto do ‘Tróia', do ‘Gladiador' e do ‘Piano', que é um filme lindo. Recentemente também vi um filme italiano que adorei: ‘O que É o Amor?'.
- Cidade preferida?
- Aquela em que vivo: o Porto.
- Um desejo?
- Que os portugueses tenham mais orgulho naquilo que são e que consumam mais o produto nacional.
- Complete. A minha vida é...
- a melhor.
PERFIL
Nuno Gama tem 45 anos e é um dos estilistas mais consagrados da actualidade. Nasceu em Azeitão, mas em 1986 decidiu partir para o Porto, onde tirou um curso . Recentemente apresentou a mais recente colecção, ‘Partizen', na 37.ª edição da ModaLisboa.