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Patrícia Bull: “Sou mais introvertida fora do palco”Confissões: 31.12 - 10h Por: Sofia Rêgo

Patrícia Bull quis ser jornalista e podia ter sido bailarina. Adora dançar e passear a cadela que lhe ofereceram. Católica praticante, diz que é destravada na cozinha. Nos palcos ilumina-se, mas fez-se actriz por acaso.

- Casou em Setembro e proibiu a publicação de fotografias. Porquê?

- Porque não convidei a comunicação social. É um dia tão íntimo, tão pessoal... Quando se faz um jantar de aniversário não se convida a imprensa. São coisas distintas. Até acho estranho aparecerem.

- Sempre foi muito reservada. Separa o trabalho da vida pessoal?

- Sim, porque, no meu entender, são coisas distintas. Por vezes as pessoas misturam e às vezes já não se percebe quem é que aparece devido à profissão ou quem se faz valer pelos casos amorosos que teve.

- Quer ser reconhecida como actriz?

- Até à data é isso que tem sido o meu percurso. As pessoas reconhecem-me e dão-me valor pelo que faço. O meu lado mais íntimo... Se o público respeita, parto do princípio de que a comunicação social também o deveria fazer.

- Mas essa reserva tem a ver com o seu marido, Ricardo Gonçalves? Com o facto de ele não gostar de se expor?

- Tem a ver comigo. É a linha que tem sido comum no meu percurso, é a reserva do meu foro privado e que eu gostaria de manter. Tem a ver com a minha maneira de estar e de lidar com a minha profissão. Acho que não se tem de dar mais importância do que a merecida.

- Mas tem pudor em falar sobre si?

- Sobre mim não. Desde que isso não implique a pessoa que vive comigo ou as pessoas mais chegadas. Eu não tenho o direito de falar sobre as outras pessoas, sobre as pessoas que me são chegadas.

- Ainda sobre o seu casamento. Fez o copo-de-água num parque temático e ofereceu um safari aos convidados. De quem foi a ideia?

- A ideia foi dos dois. Somos pessoas que gostamos do lado natural da vida. E queríamos proporcionar isso às pessoas, para não ser uma coisa estabelecida. O casamento, às vezes, é um bocado chato, as pessoas não se reconhecem e eu quis reconhecer-me e quis mostrar aquilo que sou e a pessoa que está comigo também.

- Já disse que o Ricardo era o homem da sua vida. Gostava de ser mãe em breve?

- Eu sempre quis ser mãe. Sempre me vi no papel de mãe. Mas, às vezes, não é só uma questão de querer. É também preciso que seja possível, que a natureza o queira. Dar à luz é um milagre. E dou muita importância a esse momento, que tem tudo para ser belíssimo mas, por vezes, não faz só parte da nossa vontade. O nosso corpo também tem de permitir que isso aconteça.

- A Patrícia tem duas irmãs gémeas...

- Tenho, mas não corro o risco de ter gémeos. Acho que pula uma geração.

- E é verdade que já pensou em adoptar uma criança?

- Já pensei, mas nunca cheguei à conclusão se seria, ou não, capaz. Acho que se a vida me proporcionar, se eu sentir cá dentro que sou capaz... É um passo de uma grande responsabilidade.

- Não deve ser tomado de ânimo leve?!

- Não deve não. Portanto, se eu achar que tenho essa capacidade, se achar que estão reunidas as condições, que poderei amar essa criança como sendo um filho biológico, gostava.

- Acha que para se ser mãe tem de se ter um dom?

- Ser boa mãe é um dom, porque nem todas as mães são boas.

- E o que é que separa a boa da má mãe?

- O compromisso, a responsabilidade que se tem perante uma criança. O amor que se deve dar; por vezes, há pais que não têm essa capacidade. E o amor é a base do crescimento. Infelizmente, vêem-se cada vez mais crianças abandonadas, desprezadas, deixadas à mercê.

- Tomou contacto com essa realidade no seu trabalho de voluntária na associação Pais em Rede?

- Eu dou o meu apoio à Pais em Rede quando me é solicitado. É um projecto do qual me orgulho muito. E é muito importante, porque reúne e informa pais que têm em comum filhos com deficiências. Às vezes, a nossa sociedade está doente e estes projectos fazem-nos pensar que todos devem ser incluídos e respeitados de igual forma. Serve para alertar consciências. Há pais que não falam dos filhos que têm deficiências.

- Escondem-nos?!

- Escondem-nos. E isso para mim é horrível. Não vou julgar, mas é horrível. Como é horrível eles sentirem que a sociedade rejeita esse filho.

- O seu contacto com pessoas com deficiência ocorreu nesta associação?

- Não. Eu cresci com pessoas que tinham deficiências cognitivas. Crianças que cresceram perto de mim que podiam dar menos em determinadas áreas, mas na área dos afectos eram especiais.

- A Patrícia não é de cometer excessos?

- Não sou uma pessoa de vícios. Não tenho vícios nocivos, que me façam mal. Fumar, beber em excesso, não.

- É ponderada e moderada?

- Sim, mas posso cometer uma loucura. Sou perfeitamente normal, às vezes faço coisas mais loucas, saio um bocadinho daquilo que é comum em mim mas depois normalizo. Às vezes, abraçar um projecto meio louco, ir de repente para um sítio à aventura, acho giro mas não passa daí.

- É uma pessoa alegre?

- [risos] Sim, sou.

- E gosta de dançar?!

- Gosto. Dançar traz-me alegria. Gosto de ritmos africanos, mais envolventes, mais quentes, como gosto de salsa, de cha--cha-cha. E gosto muito de kizomba.

- A Patrícia nasceu em Portugal?

- Nasci em Portugal. A minha mãe é portuguesa e o meu pai também, mas nasceu na Guiné.

- E é uma pessoa observadora?

- Acho que sou. Gosto de estar de fora a observar, a tentar perceber algo mais do que aquilo que é imediato. O que está para lá.

- E foi essa curiosidade que a levou a pensar em ser jornalista?

- Talvez. Aos 16 anos eu já mostrava a sede que tinha pelo que se passava. Parecia que não chegava o que estava a viver, queria descobrir mais..

- Mas essa sede...

- Foi quando comecei a fazer escolhas nas amizades. Quando conheci o bom e o mau, o saudável e o vício. É nessa altura que se começa a sair, a darmo-nos com pessoas que têm outras estruturas e outra formação. E eu, apesar de ser uma pessoa que se dá com toda a gente, consigo perceber o que é que está certo e errado. O que me interessa e o que não me interessa. No meu liceu havia pessoas de bairros sociais.

- Estudava onde?

- Saí dos Maristas e fui para o Liceu da Parede [Linha de Cascais]. Nos Maristas o ambiente era privilegiado e quando fui para o liceu comecei a dar-me com pessoas que vinham de bairros problemáticos. Não fazia distinção e, muitas vezes, surpreendi-me com as pessoas que vinham de meios mais complicados, pois mostravam ser as pessoas com pontos de vista mais coerentes.

- Acha que o meio onde se cresce determina a pessoa?

- Acho que sim. É muito importante. Mas não tem de ser limitador nem castrador.

- Porque é que abandonou a ideia de ser jornalista?

- Perdi o interesse, não via em mim uma grande profissional. É preciso ter-se esse dom, não basta ter o curso. E é preciso querer saber muito e querer partilhá-lo. E eu não tinha esse fervor da partilha.

- Tinha uma curiosidade ‘egoísta’?

- Tinha uma curiosidade para mim. Não era essencial partilhar o que descobria. E, depois, fui ganhando mais curiosidade pela profissão de actriz. Estava nos Maristas e eles incentivavam muito o desenvolvimento da área artística. Eu tocava piano, dançava, cantava e representava. Gostava muito de estar num palco.

- Fez-se actriz por acaso?

- É verdade. Eu podia ter sido outra coisa qualquer.

- Podia ter sido o quê?

- Não sei. Bailarina, porque, na altura, gostava muito de dançar.

- Tudo relacionado com as artes?

- É verdade. Gosto muito. Vibrava quando via um espectáculo, quando estava em palco fervilhava, apetecia-me mais e mais. Quando estou em cima do palco esqueço tudo. Ilumino-me. No dia-a-dia sou mais introvertida, quando estou no palco há qualquer coisa de mágico que acontece.

- E quando não está no palco?

- Faço tudo o que as pessoas fazem na sua vida diária. Cozinho, passeio a cadela...

- Cozinha bem?

- [risos]. Eu sou um bocado destravada. Sou criativa, não sigo uma lógica, uma receita. E às vezes as coisas saem bem.

- E a cadela...

- Chama-se Puma. É rafeira. Uns amigos encontraram-na, uma bola de pêlo cheia de pulgas, toda suja e tinham essa surpresa para mim.

- É religiosa?

- Sou católica. Sou praticante. Tenho uma fé muito viva. Sou crente, acredito que existe um Deus, acredito que esse Deus é de paz e amor... E acredito que as coisas não se extinguem neste ciclo. Acredito que existe uma reciclagem divina.

INTIMIDADES

- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?

- O João Baião, ele é muito divertido. Já trabalhámos juntos e já dancei com ele. E é uma pessoa com um grandessíssimo coração.

- Quem é para si o homem mais sexy?

- O meu marido.

- O que não suporta no sexo oposto?

- A prepotência masculina.

- Qual o seu maior vício?

- A praia, o mar... Faz-me impressão estar longe do mar.

- O último livro que leu?

- Estou a ler ‘Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher’ [de Christiane Northrup].

- O filme da sua vida?

- Tantos... ‘O Herói’, um filme em que participei, em que cresci muito, tive experiências muito bonitas.

- Cidade preferida?

- Gosto muito de Paris.

- Um desejo?

- Continuar a ser feliz.

- Complete. A minha vida é...

- Um enigma.

PERFIL

Patrícia Bull tem 33 anos. Estudou nos Maristas e no Liceu da Parede antes de se especializar em representação. Actriz, ficou em segundo lugar na segunda temporada de ‘Dança Comigo’, da RTP, e em 2005 foi condecorada com o prémio Melhor Actriz 2005 da Academia Televisiva Portuguesa.



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