Sara Tavares: “Para fazer carreira a partir de Portugal é preciso ter reservas extra” Êxito:
18.2 - 10h
Por: Miguel Azevedo
A cantora actua dia 23 no CCB e dia 1 de Março na casa da Música, no Porto. O pretexto para falar da carreira.
- O seu último trabalho ‘Xinti’ já foi lançado há três anos. Ainda há muito para explorar neste disco?
- Acho que sim, até porque eu estive parada quase dois anos por motivos de saúde. Depois de editar o ‘Xinti’, só consegui andar na estrada durante seis meses. Fiz apenas as primeiras viagens do calendário de promoção. Depois tive de interromper e ficou muita coisa por fazer.
- Gostava de tocar mais em Portugal?
- Claro que gostava.
- E por que é que isso não acontece?
- Por falta de convites e porque também acho que as coisas ficaram muito direccionadas para tocar lá fora a partir do momento em que fiz um contrato com uma editora holandesa, que trabalha muito no circuito da World Music.
- E Portugal não faz parte desse circuito?
- Faz, mas Portugal é um pequeno país no circuito da World Music. Temos poucos eventos e poucos festivais vocacionados para esta área da música. Temos o festival de Sines e alguns auditórios que vão investindo, mas ainda há pouco espaço.
- Há dois anos teve de ser operada a uma lesão no cérebro, o que a afastou muito tempo. Ficou tudo bem depois disso?
- Sim, felizmente está tudo resolvido. O pior já passou. Os médicos cuidaram bem de mim.
- Mudou muito depois desse episódio?
- A pessoa acalma [risos]. Tive de ter ali um período de adaptação, que não foi fácil. Tive de aproveitar para fazer outras coisas, porque não podia fazer viagens.
- Com o que é que se ocupou então?
- Ocupei-me mais com aquelas coisas de casa e virei-me mais para a família [risos].
- Esteve muito receosa?
- No início estive ansiosa, mas, depois, os médicos explicaram-me o que eu tinha, desmistificaram as coisas e disseram-me que era simples de tratar.
- Está a caminho das duas décadas de carreira. O que é que mais tem aprendido neste percurso?
- Aprendi a ter sentido de humor e a não ‘ferver em pouca água’. Aprendi que devemos apreciar o momento presente, porque há coisas que se deixarmos para trás podemos não voltar a passar por elas.
- Como por exemplo?
- Há muitos países onde não sei se vou voltar. Gostei muito da Índia, mas não sei se voltarei a ter oportunidade de lá ir novamente.
- Porquê?
- Porque para fazer uma carreira musical a partir de Portugal é preciso ter umas reservas extra. É que o caminho é longo.
- Mas sente que foi fácil encontrar esse caminho?
- Não. Foi preciso muita busca e esforço para encontrar a música e os parceiros certos.
- O que é que a leva a compor?
- A necessidade de ouvir coisas novas. Sinto muita necessidade de criar. Acho que é assim que um artista exorciza os seus sen-timentos. Sinto que componho por necessidade.
- Compõe muito sobre si?
- Sobre mim e sobre aquilo que me rodeia. É sempre a minha perspectiva das coisas.
- No final do ano passado venceu o prémio para melhor voz feminina de Cabo Verde. Isso fê-la sentir-se mais perto das suas raízes?
- Não, eu já me sentia perto de Cabo Verde, até porque nos últimos anos a aproximação àquelas ilhas tem sido uma coisa muito constante e muito intensa.
- O que é que sentiu com essa distinção?
- Senti que o povo cabo-verdiano estava a receber-me mesmo como filha da terra. Eu sou filha da diáspora, já nasci em Lisboa e por isso aquilo deu-me um sentimento de pertença muito gostoso.
- Mas foi uma surpresa para si vencer nomes como Mayra Andrade ou Lura?
- Sim, até porque estavam ali cantoras muito mais próximas da expressão tradicional, que cantam em crioulo e tudo. Mas enfim... Cabo Verde tem este espólio de artistas cá fora que também trabalham muito na vanguarda da arte cabo-verdiana.
- Esse prémio mudou alguma coisa?
- Não. Veio apenas dar-me mais motivação para continuar a fazer coisas.
- E sente que Portugal lhe dá o mesmo valor que deu agora Cabo Verde?
- Sim, acho que sim. Sempre me senti bem em Portugal. Sempre me senti muito acarinhada. Eu sou daqui e nunca me vou desfazer do que já conquistei por cá.
- O que há em si de cabo-verdiana e o que é que há em si de portuguesa?
- Há muito de português nos cabo-verdianos [risos] e já há muito de Cabo Verde em Portugal. Há cá uma comunidade enorme, assim como há de angolanos, moçambicanos ou brasileiros. E isso contagia-me muito, como eu acho que contagia os portugueses em geral. Hoje, acho que o português já não é só luso, já é muito tropicalista. A segunda língua mais falada em Lisboa é o crioulo.
- Mas no seu caso em particular, o que é que tem de um lado e de outro?
- Não sei. Acho que de Cabo Verde tenho a rítmica, o gostar do sol, de rir e de ser muito relaxada. Mas depois é engraçado, porque quando vou a Cabo Verde também não me sinto totalmente adaptada.
- Com o quê?
- Com a comida, por exemplo. Gosto muito da comida cabo-verdiana, mas quando estou lá muito tempo sinto, por exemplo, falta de um bitoque [risos].
- E quando toca lá fora, apresentam-na como portuguesa ou cabo-verdiana?
- Varia muito. Mas eu já vou explicando nos meus espectáculo o que é a diáspora cabo-verdiana, para as pessoas irem assimilando as coisas.
- Cabo Verde perdeu a sua diva, Cesária Évora. Que efeito isso terá na cultura?
- A morte de Cesária tocou a todos os cabo--verdianos, mesmo aos que não têm nada a ver com a música. Em alguns mapa mundo, Cabo Verde nem aparece e a Cesária todos sabiam quem era.
- Conheceu-a pessoalmente?
- Sim. Cruzei-me com ela no início da minha carreira. Era a pessoa mais simples e mais terra-a-terra do Mundo. É isso que me fica dela, a autenticidade.