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Marcantonio: "É na cozinha que acalmo e relaxo"Nacionais: 19.2 - 14h Por: Sofia Rêgo

Marcantonio Del Carlo garante que é actor por acaso. Diverte-se a viver outras vidas mas é ainda com dificuldade que se vê no ecrã. Adora cozinhar e confessa que o papel da sua vida é criar Salomé.

– É verdade que não teria problema em deixar a vida artística ?

– Eu cheguei ao teatro de uma forma casual. Nunca, em criança, quis ser actor. Não era uma ambição.

– Isso há 23 anos?

– Sim. Fiz o Conservatório ainda no Bairro Alto numa turma muito gira. Eu, o Diogo Infante, o Carlos Pessoa, hoje director do Conservatório, o Miguel Seabra... E lembro-me que quando fiz as audições estavam todos muito nervosos e eu não.

– Mas se não queria ser actor, queria o quê?

– Eu tinha 20 anos, acho que com essa idade ninguém sabe o que quer ser. Depois descobri que tinha a ver com aquela realidade. Que o teatro permitia exibir-me e mostrar-me. E eu sempre fui um bocadinho retraído.

– Era introvertido?

–Era metido com os meus botões e no palco podia exibir-me. Os actores são uns grandes exibicionistas, gostam de mostrar-se. Eu não tenho problemas em deixar isto, porque cheguei por acaso.

– Via-se a fazer outra coisa?

– Via-me como chef de cozinha. Via-me a cozinhar.

– Gosta de cozinhar?

– Adoro. O teatro e a cozinha são as duas grandes terapias. Neste frenesim de vida que tenho é na cozinha que acalmo e relaxo.

– Encontra-se na cozinha?

– Eu e a minha família. Na cozinha estamos muito presentes. As pessoas que vão lá jantar a casa ficam sempre na mesa de jantar ou na cozinha. É na cozinha que eu tenho paz. Não há obrigação, senão adoçar o paladar.

– Então o que o prende à representação é a possibilidade de ser várias pessoas?

– É um cliché, mas é verdade.

– Diverte-se?

– Sim. Subir ao palco todas as noites é um divertimento que não é para todos. Mas há uns anos, ser-se actor era uma coisa mal vista, nomeadamente pelos pais das minhas namoradas. E as crises que temos quando estamos insatisfeitos... Isto é um trabalho de grande insatisfação. Ainda hoje tenho dificuldade em me ver, mas já consigo.

Não conseguia?

– Não. É como quando mostramos o filme das férias aos amigos: "ui que horror, aquele sou eu?!". Essa relação de nos vermos... E é engraçado porque desde que comecei a fazer muito cinema e televisão comecei a perder algum gosto por ver cinema e televisão.

"LÁ EM CASA HÁ MUITA PALHAÇADA"

– Ser pai, mudou-o?

– Esse é o grande papel. Mudou-me completamente. A Salomé [de 10 anos ] é fantástica.

– Ela gosta de vê-lo?

– Gosta mas ainda não tem espírito crítico. Diz, "estás a fazer as mesmas palhaçadas que fazes aqui". Como em lá casa há muita palhaçada, muita loucura...

– Ela tem aptidão para as artes?

– Ela está, há três anos, a estudar piano. Escolhemos isso por causa da disciplina que a música dá e, de repente, segundo o professor, ela temum talento inato. O que é fantástico e uma grande inveja, porque tocar um instrumento é uma coisa que eu adorava, mas não consigo, porque não tenho ouvido. Mas ela também diz que quer ser médica.

– É casado com a actriz Marta Nunes. É mais fácil manter uma relação com uma pessoa do meio?

– É mais fácil no sentido em que sabemos o que é estar às voltas com a personagem. Eu sou muito perfeccionista a trabalhar, e nós não somos marido e mulher a fazer uma peça.

"SÓ LEIO TEATRO POR OBRIGAÇÃO. É UMA CHATICE"

- Gosta de ler?

– Adoro. Só leio teatro por obrigação, é uma chatice, mas ensina-nos muito sobre dramatologia. Gosto de romance – o romancista faz-nos sonhar – poesia, gosto de ler jornais. Pertenço àquela geração que sai de casa, toma o pequeno--almoço e compra o jornal.

- Tem vícios?

O maior vício é a comida. Adoro comer. Tenho três outros vícios: o vinho, a música e a leitura. E a Marta de vez em quando trava-me: "já estamos a gastar muito em livros e discos".

- É agnóstico?

Exactamente. E acho que há um sentido para as coisas boas e para as más.

- Acredita no destino?

Sim. Não posso acreditar que nascemos por acaso, que saio à rua, tropeço e me magoo por acaso. Tem de haver uma razão, senão não faz sentido.

PERFIL

Italiano, veio para Portugal com 15 anos. No Conservatório, diz que foi João Mota quem lhe abriu os olhos. Hoje, acumula a representação, encenação, escrita e o ensino. Casado com a actriz Marta Nunes, ganhou uma filha, Salomé de dez anos



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